SÍMBOLO (NA ESTÉTICA CONTEMPORÂNEA)

 

Ana Sofia Veigas

 

Do grego sumbolon, ”marca, sinal de reconhecimento, contra-senha”, e do latim, adaptado do grego, symbǒlum, “sinal, marca distintiva, insígnia”, o vocábulo, que se reveste de profunda polissemia, foi objecto de ampla evolução semântica em termos diacrónicos, da qual dá conta René Alleau (A Ciência dos Símbolos).

É a partir do último decénio do século XVIII que o símbolo adquire um novo significado estético.

Kant (n. 1724 - m. 1804) estabelece um elo de ligação, uma via de comunicação entre o domínio da Natureza, ou da realidade sensível, e o domínio da liberdade ou da moralidade, na medida em que a Natureza, enquanto conjunto de objectos que podem ser belos, i.e., produzir prazer estético ou puro, desinteressado, transforma-se em símbolo da moralidade (“o belo é o símbolo do bem moral”, in Crítica da Faculdade de Julgar). A vivência estética singulariza-se por ser pura e desinteressada, assim como o sentimento de respeito pela lei moral é puro e não condicionado por interesses. O símbolo, que Kant utiliza como analogia, traduz, então, indirecta, mas intuitivamente, não só as “ideias da razão”, mas também as “ideias estéticas”.

Goethe (n. 1749 - m. 1832), tal como outros teorizadores do período romântico, postulará as diferenças entre alegoria e símbolo, realçando que este apela, quer à dimensão perceptiva, quer intelectiva, na medida em que existe por si próprio, mas também significa, o que despoleta um trabalho de interpretação infinita. Dotado de coerência interna, o símbolo caracteriza-se pela intransitividade do significante, em que cada coisa é aquilo que significa, sem remeter para outra coisa diferente de si, segundo Schelling (n. 1775 – m. 1854).

Ancorado nos fundamentos filosóficos do movimento romântico, surge em França, na década de 80 do século XIX, um movimento artístico e literário denominado Simbolismo, o qual procurou criar uma estética que considerava as formas e as cores como elementos básicos de uma linguagem visual fortemente simbólica, capaz de exprimir sensações espirituais e de traduzir as questões básicas da existência humana.

A partir do primeiro quartel do século XX, a reflexão sobre o símbolo desloca-se para o âmbito das ciências sociais e da filosofia da cultura de Cassirer (n. 1874 – m. 1945). Ao preconizar o estudo do Homem enquanto ser cultural, define-o como animal symbolicum que vive num universo simbólico de que são partes constituintes a linguagem, o mito, a arte e a religião, os “fios variados que tecem a teia simbólica, a emaranhada teia da experiência humana.” (Ensaio sobre o Homem). Sem esta trama, a vida do homem confinar-se-ia essencialmente às suas necessidades biológicas, sem poder aceder à imaginação simbólica, qual prisioneiro da caverna platónica, impossibilitado de contemplar o “mundo ideal”.

Produto da obra e da imaginação humana, o símbolo possui uma função criadora e poética, educando o Homem, através do mito e do rito, para as realidades invisíveis, bem como para o outro lado de si mesmo e do mundo. Enquanto “epifania de um mistério” (G. Durand, A Imaginação Simbólica), o símbolo estende o campo da consciência a domínios ignotos, e mesmo inefáveis, pois “é pelo facto de inúmeras coisas se situarem para além dos limites do entendimento humano que nós utilizamos frequentemente termos simbólicos para representar conceitos que nós não podemos nem definir nem compreender plenamente”, como refere Jung (O Homem e os seus Símbolos). Na esfera religiosa, concretamente, o símbolo, “relação entre o ser do homem e o Ser Total” e ”hierofania, (...) manifestação do homem com o sagrado” (P. Ricoeur, Finitude e Culpabilidade), institui a profunda aliança entre o Homem, o universo e Deus (abscôndito, mas presente no início e no fim de todos os símbolos), equacionando-se em termos de uma “categoria transcendente da altura, do supraterrestre, do infinito”, que se “revela ao homem todo, tanto à sua inteligência como à sua alma” (M. Eliade, Tratado da História das Religiões).

Intimamente enraizado no mundo sensível, o símbolo, enquanto função operativa, permite estruturar as relações do homem com tudo o que o rodeia numa dupla perspectiva semântica, que alia o sentido literal (sensível e material) e o sentido indirecto, que, no intento de uma interpretação, apela à subjectividade. Estudos antropológicos contemporâneos pretenderam abordar as funções simbólicas segundo duas perspectivas: a imagética, que tenciona sublinhar as antinomias na constituição das imagens simbólicas sem referência explícita à subjectividade, e a reflexiva, a qual procura “integrar os dados obtidos numa percepção da actividade do sujeito humano” (Carlos Correia, Ricoeur e a Expressão Simbólica do Sentido) .

Inscrevem-se no domínio imagético os estudos de M. Eliade sobre as dimensões uranianas e ctónicas das imagens simbólicas (Tratado da História das Religiões), base das reflexões de G. Durand, que propõe a organização do material representativo do imaginário humano segundo dois regimes, o diurno e o nocturno (As Estruturas Antropológicas do Imaginário).

Na área da interpretação reflexiva integram-se as considerações de Jung, sublinhando a existência de uma dimensão espiritual inconsciente, que se torna consciente através do símbolo. Este, animado de um dinamismo ascensional, é regulado por um conjunto de arquétipos, imagens primordiais que povoam o inconsciente colectivo humano, a partir do qual a consciência de cada um realiza o seu processo de individuação (O Homem e os seus Símbolos).

P. Ricoeur (Finitude e Culpabilidade) harmoniza as perspectivas das escolas imagéticas e reflexivas, sugerindo um quadro em que descreve o símbolo imbuído de uma tripla função: cósmica (recolhe a sua figuração no mundo visível), onírica (fixa-se nas recordações e nos gestos que emergem dos nossos sonhos) e poética (o símbolo apela à linguagem). A linguagem poética (metafórica e narrativa) efectua o desdobramento no campo referencial, permitindo a criação de um referente de segundo grau, uma extensão secundária distinta do referente imediato. Trata-se de uma “redescrição da realidade”, uma “transformação que impõe uma espécie de torção às palavras, uma extensão do sentido, graças à qual podemos descortinar um sentido onde uma interpretação literal seria literalmente absurda” (P. Ricoeur, Teoria da Interpretação). Nesta linha se enquadra a teoria da exemplificação de N. Goodman (Linguagens da Arte), para quem a construção do mundo consiste na construção de sistemas de símbolos, que se equaciona em termos de dois modos básicos de referência: a denotação (relação entre o símbolo/etiqueta e aquilo a que se aplica) e a exemplificação (relação que ocorre quando o símbolo/amostra refere uma ou mais etiquetas que o denotam). Assim, um quadro pintado em tons cinzentos denota e exemplifica literalmente a cor cinzenta, mas só metaforicamente exemplifica (expressa) tristeza.

A extensão metafórica de uma etiqueta permite criar significações infinitas, bem como uma pluralidade de mundos alternativos, onde o imaginário actua como elemento dinamizador fundamental. É uma aliança incessantemente renovada entre o homem, o cosmos e o seu interior, afinal, as duas metades (cósmica e onírica) que se unem, como sinal de reconhecimento.

 

Bibliografia

 

Alleau, René, La Science des Symboles, Paris, Payot, 1976.

Carchia, Gianni e D’Angelo, Paulo (dir.), Dizionario di Estetica, Roma-Bari, Laterza & Figli Spa, 1999. 

Correia, Carlos João, Ricoeur e a Expressão Simbólica do Sentido, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 1999.

D’Orey, Carmo, A Exemplificação na Arte. Um estudo sobre Nelson Goodman, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 1999.

Durand, Gilbert, L’Imagination Symbolique, Paris, PUF, 1964.

Durand, Gilbert, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, Paris, Bordas, 1984.

Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, vol. 4, Lisboa-São Paulo, 1992, pp. 1132-41.

Ricoeur, Paul, Interpretation Theory: Discourse and the Surplus of Meaning, Forth Worth, The Texas Christian University Press, 1976.

Todorov, Tzvetan, Théories du Symbole, Paris, Seuil, 1977.

 

LÉXICO