SILÊNCIO

Mónica Santos

 

Na etimologia da palavra, silêncio vem de silentium, de silens (silere) que significa estar em repouso, tranquilidade, descanso.

No nosso pensamento mítico, o silêncio é identificado com o caos; é anti-história. O tempo é silencioso e abstracto, como refere Jankélévitch. O ruído está ligado à presença humana e relaciona-se com o movimento. O devir dos eventos e ocorrências no tempo faz ruído. O ruído, ao negar o silêncio, torna-se criação, representação do mundo, símbolo da vida. Ao enfrentar este “muro de silêncio”, o homem através do mito exprime-se e afirma a dualidade ruído/vida, reacção do dualismo silêncio/morte.

O silêncio não é sinónimo da presença de uma ausência mas da denominação da realidade.

Com a afirmação “até morrermos existirão sons”, John Cage explicitamente relaciona o silêncio com a morte. Talvez possamos compreender o silêncio, pensar o silêncio, mas a experiência do silêncio absoluto permanece uma aporia para nós. Morte e silêncio, ligados através da mesma experiência inexequível.

De entre várias abordagens, o silêncio pode ser compreendido pelo menos de duas formas. Por um lado temos o silêncio audível, um silêncio que permanece entre o perceptível: o silêncio significa a totalidade do som; são todos os sons não intencionais, afirma Cage.

O silêncio absoluto refere-se a tudo o que sai do âmbito do audível. Não existe qualquer tipo de estrutura auditiva. Este silêncio implica o silêncio na morte, da morte, morte como silêncio. O homem receia a ausência do som tal como receia a ausência da vida, declara o compositor Murray Schafer.

O momento da morte já não pertence ao seu tempo escreve Derrida. O silêncio absoluto já não está conectado ao tempo; está para além dele.

A música nasce do silêncio e retorna ao mesmo. Existe um silêncio antes e depois, como o nascimento e a morte. O silêncio inicial é uma promessa ou ameaça. O silêncio terminal designa talvez o nada ao qual a vida retorna.

 

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