SENSIBILIDADE – A comum definição de sensibilidade (do latim sensibilitas) enquanto ‘faculdade de sentir’ revela, desde logo, a abrangência e riqueza semântica daquele termo. Enquanto ‘faculdade de sentir’, a sensibilidade pode ser considerada como a capacidade de receber e perceber impressões do próprio corpo e do mundo que lhe é exterior. A sensibilidade está, assim, simultaneamente associada, quer à capacidade de ter sensações, percepcionar e conhecer, quer à possibilidade de ‘se ser afectado’, ou seja, à capacidade de ‘se ter vida afectiva’ (desejar, amar, sofrer, fruir, comover-se, emocionar-se...). Deste modo, o termo ‘sensibilidade’ tanto nos pode remeter para os conceitos de ‘aparelho sensitivo e perceptivo’, ‘intuição sensível’ ou de ‘excitabilidade - pelos quais nos são dados a conhecer os objectos sensíveis -, como para os conceitos de ‘sentimento’, ‘delicadeza de sentir’, ‘gosto’, ou mesmo, ‘capacidade de fruição do Belo’ e ‘fantasia criativa’ – que nos permitem aceder à experiência estética e à criação artística. A contiguidade desta dupla vertente (gnoseológica e estética) do termo ‘sensibilidade’ é já patente em filósofos como Platão e Aristóteles. O primeiro, sulcando caminho à tradicional dicotomia sensibilidade/intelecto, considera os seres sensíveis como meras sombras ou cópias deturpadas do verdadeiro Ser (inteligível). A ‘faculdade de sentir’ é, assim, remetida para o plano ilusório da doxa e a produção artística para o estatuto de mímesis de uma mímesis que provoca nos espectadores sentimentos contrários à sabedoria. A contemplação do Belo não é, pois, realizada no sensível, mas sim, através de uma progressiva libertação do mesmo. Com Aristóteles, a ‘faculdade de sentir’ é duplamente recuperada. Se, no plano gnoseológico, as sensações e as representações sensíveis são a base de todo o conhecimento, no plano da arte os conceitos de mímesis e katharsis vêm, respectivamente, antecipar as qualidades específicas da criação artística (profundidade e delicadeza dos sentidos e do sentir) e reconhecer os efeitos purificadores e libertadores que a obra trágica pode exercer na sensibilidade dos espectadores. A discussão em torno do estatuto da sensibilidade, e dos laços que ela tece entre o conhecimento do real e a produção artística, adquire novo fôlego no Renascimento, com o dealbar da ciência experimental e as novidades trazidas, sobretudo, pelas artes pictóricas. Essa discussão prolongar-se-á pela modernidade, dando lugar a respostas divergentes como a do racionalismo cartesiano e as do empirismo inglês. Será Baumgarten (1714-1762) que, seguindo Leibniz e a afirmação da passagem progressiva dos conhecimentos obscuros (do domínio do sensível) aos conhecimentos distintos (do âmbito da razão), irá propôr a construção de uma disciplina autónoma – a Estética – cujo objecto seriam os sensíveis (do grego aistheton). A ‘faculdade de sentir’ torna-se, assim, objecto de estudo de uma ciência que, segundo Baumgarten, visaria simultaneamente: orientar a faculdade cognoscitiva inferior (que incluiria, quer os sentidos e as sensações, quer as representações sensíveis de objectos ausentes, resultantes da faculdade imaginativa) em direcção à superior; instituir-se como uma teoria da arte na medida em que a Beleza seria ‘a perfeição do conhecimento sensível’ e a poesia ‘o perfeito discurso sensível’. Com Baumgarten a dimensão artística seria, pois, a fronteira preparatória que, situada, ainda, no âmbito do sentir anunciaria o âmbito da racionalidade. A relação entre sensibilidade e intelecto, quer no plano gnoseológico, quer no da experiência estética e das artes, encontrará em Kant um marco incontornável. O termo ‘estética’ (transcendental) é usado por Kant, na “Crítica da Razão Pura” como “ciência das regras da sensibilidade em geral”. À ‘estética transcendental’ caberia o estudo das formas puras a priori da sensibilidade (intuições do espaço e do tempo) que viabilizam e determinam as intuições sensíveis, ou seja, a recepção da matéria do conhecimento. A sensibilidade é, portanto, uma faculdade imprescindível no processo cognitivo: se, na ausência do entendimento e das suas formas puras a priori (as categorias) não é possível qualquer unificação ou síntese e, consequentemente, nenhum conhecimento, sem a sensibilidade nenhum conteúdo de conhecimento haveria para unificar. È, contudo, na “Crítica da Faculdade do Juízo” que a ‘faculdade de sentir’ será abordada ao nível da experiência estética e da criação artística. Neste âmbito, a sensibilidade afirma-se como ‘um sentir’ que se expressa no juízo de gosto. O juízo de gosto, resultante do livre jogo das faculdades, é determinado, não pelo conceito, mas por um sentimento desinteressado (de Belo e de Sublime) que, sendo subjectivo, aspira à universalidade. A experiência estética, que o juízo de gosto exprime, harmoniza, portanto, a dimensão sensível e a inteligível (sendo um juízo expressa um sentimento, sendo subjectivo aspira ao universal). Também Hegel reconhecerá na Arte (não no Belo natural) uma síntese entre o sensível e o inteligível, visto que a mesma é “a manifestação sensível da ideia”. Contudo, como o sensível não é a forma mais adequada da manifestação do espírito, a Arte será ultrapassada pela Religião e pela Filosofia. Apesar de, progressivamente, o termo Estética se ter vindo a identificar com o de Filosofia da Arte desviando-se, assim, do seu sentido etimológico e do seu objecto primordial, tal não significa que o conceito de sensibilidade (sentir/sensíveis) tenha perdido a sua actualidade e pertinência. A ‘faculdade de sentir’ continua a ser tema de reflexão, não apenas no âmbito filosófico (em particular na Estética e Filosofia da Arte) como no âmbito científico (a neurobiologia e a Psicologia são, neste momento, contributos fundamentais para a sua compreensão). [Bibilografia – CARCHIA, Gianni e D’ANGELO, Paolo, Dicionário de Estética, Lisboa, ed. 70, 2003; Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 1997, vol. 4, pp.1024-1026; Enciclopédia Enaudi, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1992, vol. 25, pp. 122-138 (obras fundamentais dos autores a que se faz referência: ARISTÓTELES, Da Alma, Poética; BAUMGARTEN, Aesthetica, HEGEL, Estética; KANT, I., Crítica da Razão Pura, Crítica da Faculdade de Julgar; PLATÃO, A República, Fédon, O Banquete)]

 

LÉXICO