MEMÓRIA - Capacidade humana de reter, guardar e conservar as vivências passadas. É uma evocação do passado que permite reavivar e tornar presente aquilo que não retornará jamais. Permite perenizar os acontecimentos. Possui uma dimensão introspectiva e retrospectiva.

Na Mitologia Grega, a M. está associada a Mnémosyné (Fonte de Memória) que contrasta com Lete (Fonte do Esquecimento). Nos Infernos, os mortos bebiam em Lete para esquecerem a sua vida terrena, de igual modo, bebiam em Mnémosyné para recordarem as suas vidas passadas. A M. relaciona-se com a Adivinhação e com a Metempsicose. Em PLATÃO, a M. surge como uma forma de delírio (Fedr. 249d), designada de reminiscência/anamnese. Quando o homem observa uma coisa bela recorda-se da Beleza que a sua alma contemplou no outro mundo, antes de reencarnar, e entra em delírio amoroso. O eros suscitado pela contemplação de uma coisa bela, impulsiona o homem na busca da verdade. A filosofia tem um carácter erótico e trata-se de processo regressivo. O Belo encontra-se no cume da hierarquia dos Arquétipos e só pode ser conhecido mediante uma ascese: partindo da "beleza sensível dos corpos" - "beleza espiritual das almas" - "beleza ou amor da sabedoria" que conduz à contemplação do "Belo em si" (Banq. 211c)

St. AGOSTINHO, cuja herança platónica é conciliada com a Revelação cristã, concebe a M. como uma potência abismal da interioridade, um domínio a ser desvendado. Os "vastos Palácios da Memória" (Conf. X) estão repletos de inúmeras percepções e imagens que precisam de ser devidamente identificadas e discernidas. Não se trata apenas de uma M. dos acontecimentos passados mas uma "memória do esquecimento". É preciso recordar algo que se esqueceu. A filosofia é um caminho de procura e só se pode procurar algo que já se possuiu. O conhecimento trata-se de um re-conhecimento feito a partir de uma imagem interior que busca um objecto coincidente. Quando o objecto é encontrado é imediatamente reconhecido pela imagem que ficara dentro da alma. A busca da verdade é sempre orientada pela memória. A estética de S. BOAVENTURA, influenciada pela filosofia agostiniana, constrói um itinerário da mente para Deus assente em seis graus diferentes de ascese da M. O homem deve recordar Deus transitando da M. sensível para uma M. intelectual e mística. A natureza é feita à "imagem e semelhança" do seu Criador, é uma Imago Dei, por isso Deus pode ser contemplado indirectamente, in speculum, na Criação. A M. tem como finalidade reconhecer o reflexo de Deus nas criaturas.

BERGSON  na sua obra Matière et mémoire (1896) opõe-se à concepção da M. como recordação. A M. não consiste na regressão do presente para o passado, pelo contrário, é um progresso do passado para o presente. Distingue a recordação "M.-hábito" (automatismo psíquico que se adquire pela repetição contínua de alguma coisa) e M.-pura (retém os momentos únicos e irreversíveis que são guardados no espírito do homem pelo seu significado especial e marcante). Bergson, tal como Plotino, rejeita a base fisiológica da M. e restringe-a ao fenómeno da percepção.

FREUD considera que existem três 'camadas' de M. (inconsciente, subconsciente, consciente) que formam uma espécie de topologia da mente humana. Existem elementos que condicionam a M. e a sua possibilidade de evocação. Existe uma barreira (censura ou repressão) que impede a recordação de certos aspectos da psique. A Psicanálise de Freud pretendia desvendar o carácter oculto da M. inconsciente, de forma a integrá-lo na vida consciente. O conhecimento do inconsciente permitia curar certas doenças e traumas do indivíduo. O inconsciente é inacessível, só se manifesta através da hipnose, dos sonhos, actos falhados (subitamente espontâneos) e mediante a técnica de 'associação livre' (o indivíduo a ser analisado era forçado a exprimir tudo o que lhe viesse ao pensamento: ideias, imagens, etc. ...)

O Manifesto Surrealista de BRÉTON (1924), influenciado pela Psicanálise, desvaloriza a M. consciente e exalta somente o inconsciente freudiano. A M. consciente é considerada como um obstáculo, uma interferência à manifestação dos conteúdos do inconsciente. A consciência racional tende a interpretar e organizar tudo aquilo que se manifesta, o carácter ordenador da M. consciente falsifica as verdadeiras expressões do homem. O Surrealismo procurava formas de expressão imediatas através do uso de drogas e da hipnose, de maneira a entrar em "delírio" e estabelecer uma ligação com o inconsciente. O uso "escrita automática", semelhante à técnica de "associação livre" de Freud, tinha como objectivo libertar o homem dos grilhões da sua racionalidade. O artista devia expressar livremente o que lhe viesse ao espírito (emoções, desejos, ideias, etc. ...) sem se preocupar com uma representação lógica. O Surrealismo inspira-se nos sonhos e considera que todo o artista deve subverter ou transfigurar a realidade. Os sonhos são a verdadeira realidade. O "método paranóico-crítico", criado por Salvador DALI, é um meio de recuperação dos conteúdos do inconsciente. O pintor define-o como um método espontâneo de conhecimento irracional, baseado na associação crítica interpretativa de fenómenos delirantes.

  

Bibliografia:

BERGSON, Henri, Mattière et Mémoire, Essai sur la relation du corps a l'esprit, Paris, PUF, 1946;

BRÉTON, André, Manifestes du Surréalisme, Paris, Gallimard, 1975.

FREUD, Sigmund, Massenpsychologie und ich-analise - Die zukunft einer illusion, Frankfurt am Main, Fischer Buecherei, 1971;

DALI, Salvador,  "La révolution paranoiaque-critique", Oui, Paris, Denoel, 1979;

PLATÃO, Phèdre/Le Banquet, trad. Léon Robin, Paris, Les Belles Lettres, 1970;

SANTO AGOSTINHO, Livro X, Las Confessiones, Madrid, BAC, 1991;

SÃO BOAVENTURA, Itinéraire de l'esprit vers Dieu, trad. Henri Duméry, Paris, Vrin, 1994.

 

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