Imagem

 

Filipa Afonso

 

Deriva do termo latino – imago – designando imitação, cópia, representação, semelhança, estátua, pintura. O seu sentido etimológico permite, por conseguinte, desde logo, a sua integração no léxico da Estética, por ser permutável com  as expressões que nomeiam as obras de arte plástica. Associada à ideia de representação, a imagem remete para uma alteridade que, antecedendo-a logicamente, constitui-se como seu fundamento, delineando a sua forma segundo o princípio da analogia. Por reenviar sempre a um outro, com o qual se assemelha, mas que de si se distingue, o ser da imagem é, convocando a definição de Louis Marin, «presentificação do ausente». Contudo, a atribuição de densidade ontológica à imagem inscreve-se na história da filosofia como questão controversa. A relação entre a imagem e o seu referente redundou diversas vezes numa relação entre o ilusório e o real. Neste sentido, dir-se-ia que a imagem é não por si mesma, mas pela analogia que logra com a existência. No Sofista de Platão, uma teoria da imagem é desenvolvida a partir da definição de arte e da pintura, em particular. Concebida enquanto criação de imagens, o processo artístico opera-se por imitação da verdade, ou seja, produção de semelhanças com o real. O filósofo grego distinguira a arte de criação de imagens da arte de criação de aparências, obras sem alusão à verdade e, por conseguinte, dessemelhantes do real, sendo por isso considerada arte fantástica.  A confirmação da imagem enquanto realidade efectiva ocorre nos escritos de Aristóteles que afirma que um animal pintado é simultaneamente animal e imagem. Com Séneca, o termo imagem não é imputado à obra artística, mas ao modelo interno que antecede e regula a sua produção. Todavia, ainda que fosse intrínseco da imaginação do artista, a sua origem seria externa, constituindo-se enquanto duplo mental da objectividade fáctica. No interior das concepções teológicas do Cristianismo na Idade Média, o conceito de imagem assume uma funcionalidade metafísica ao oferecer-se como mediadora no percurso que conduz o homem ao Divino. No século XIII, João Damasceno, depreendendo na visibilidade da imagem vestígios de uma realidade supra-sensível, reconhece-lhe a faculdade de, suscitando uma reminiscência, promover a ascenção ao protótipo que a imagem afinal representa. Com efeito, a analogia que entre o modelo e a sua imagem se estabelece permite pensar, como São Boaventura o fez, uma transferência do poder do primeiro para o segundo. A emanação da Beleza desde o Criador à criação explica-se segundo estes moldes, considerando a realidade criada e, por extensão, as obras de arte, superfícies especulares que reflectem as formas originais. Assim sendo, a imagem, ainda que dependente de um princípio exemplar, integra-se na esfera do ser, porque perpassada pela presença divina. Ao defini-la como substância que imita uma outra substância, Ockam viria a suprimir, com maior clareza, a cisão ontológica entre imagem e real, fazendo equivaler os seus graus de realidade. Porém, se a história da filosofia privilegiou uma determinada reflexão acerca da imagem perspectivada a partir da sua relação com o outro que representa, acentuado a sua dimensão transitiva, a contemporaneidade, nomeadamente através dos nomes de Jean-Luc Nancy e Jacques Aumont, tem vindo a introduzir uma abordagem renovada que procura compreender a imagem por si própria, emergindo já não como re-presentação (ou presença segunda que sucede uma presença primeira), mas mostração, focando o seu movimento interno de irrupção de ser. A inovação que deste modo se insere na filosofia da imagem é, contudo, ainda parcial, na medida em que o verbo “mostrar” pergunta por um referente, isto é, por aquilo que é mostrado. Apesar de a investigação daqueles autores procurar suspender a resposta a esta questão, ela permanece aí abscôndita, relembrando, mesmo que implicitamente, que a imagem é relação com a alteridade.

 

AUMONT, Jacques, L’Image.

BELTING, Hans, Likeness and Presence. A History of the Image before the Era of Art.

MARIN, Louis, Des Pouvoirs de l’Image.

NANCY, Jean-Luc, Au fond des images. Gloses.

SCHMITT, Jean-Claude, Le corps des images. Essais sur la culture visuelle au Moyen Age.

 

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