ÍCONE - proveniente do grego antigo Eikhon que quer dizer Imagem, ícone designa, geralmente, uma imagem simbólica da dimensão do sagrado. O termo tomou maior importância na religião cristã, em particular da região da Europa oriental e, mais especificamente, do império Bizantino ( a partir do século III ) e da igreja Ortodoxa daí derivada - que atingiu especial relevo na Rússia - ainda que originariamente estas imagens fossem inspirados em representações de aspectos funerários das tradições Grega e Romana, ainda que também recolhessem influência no Egipto, e certamente, em termos teóricos, na ideia neo-platónica de que o símbolo é uma expressão da realidade espiritual e possui uma função didáctica.

Contemporaneamente o ícone tomou o sentido vulgarizado de uma imagem, uma figura, representação de um qualquer protótipo, identificando, simbolicamente, determinado valor ou figura emblemática de uma cultura, de uma tradição, ou mesmo de algo mais específico como uma geração, ainda que pertencendo ao universo pluridimensional do símbolo. Apesar destas mais recentes acepções, o seu significado inscreve-se maioritariamente e originariamente numa dimensão religiosa – seja cristã, budista ou qualquer outra religião que utilize imagens simbólicas evocativas de uma dimensão transcendente – que provém desse universo e que é ainda nele que se inspira e que vai buscar as suas normas de representação.A representação da imagem icónica da religião Cristã Ortodoxa, evoca, mas é, simultaneamente, aparição, presença, daquilo mesmo que representa – instaura um sentido. Assim, o símbolo na arte sagrada aparece não ao serviço da arte, mas da Igreja - a arte icónica tem os seus conteúdos e regras de representação, determinados em concílio pelas necessidades e propósitos da Igreja. Apesar disso o ícone é entendido, num sentido profundamente místico, como uma Teofania, cumprindo uma função religiosa de reactualização do Divino: reconduz do figurado e finito, ao sentido indizível, secreto e infinito - aliás, no VII Concílio Ecuménico o ícone é definido como Anamnese. Se, por um lado, está pré-definido um ‘modelo’ de representação, em que o aspecto dos personagens revela certas características simbólicas, como os grandes olhos amendoados - contemplando a glória de Deus; a personagem principal está centralizada emanando luz, dispensando-se a utilização de sombras – já que não são personagens deste mundo; as cores são dispostas de acordo com o que simbolizam – o fundo doirado do ícone Bizantino ( aliás como o de Buda ) simboliza a luz interior, a luz da transformação espiritual, de uma dimensão celestial; a perspectiva invertida – sugere uma outra dimensão de realidade; por outro lado, cada representação é sempre uma renovação e uma recordação e uma reactualização da presença da realidade sobrenatural nas diferentes sensibilidades dos artistas e dos crentes. Opera aqui, ainda, como um suporte de meditação ( função comum com certas práticas de meditação budista ) quando o crente permanecendo com o espírito fixo na imagem é levado a concentrar-se e a identificar-se com a realidade simbolizada. Nestas imagens sagradas, não está em questão uma tentativa realista de representação, pois tal seria uma humanização do transcendente. Dá-se mesmo uma certa abstenção de evolução, em termos técnicos – nas cores, na perspectiva, nos tons - relativamente à pintura Europeia - já que os ícones de Cristo, ou dos santos, são eles mesmos as fontes de iluminação - a sua linguagem pictórica está, pois, ao nível do simbólico. Apesar de poderem ser representados em diversos materiais, como tecidos, mosaicos, metal, vidro ou tela, é mais corrente entender o ícone Cristão Ortodoxo como imagem sagrada portátil, pintada em madeira; representando, principalmente, Jesus, Maria, apóstolos e santos, mas também momentos das suas vidas e festas litúrgicas. A questão da possibilidade de representação do Divino foi motivo de profundas discussões, ao longo de vários séculos, levantadas por aqueles que - considerados iconoclastas - contestavam, sobretudo, a figuração do invisível e do transcendente, a cultuação de imagens icónicas como um fim em si mesmo. No entanto, os defensores desta arte sacra, advogavam que como a ideia de ícone está associada a uma Teologia da incarnação. " Cristo é o ícone de Deus" – diz S. Paulo nos Corintios, torna-se legítimo representar a segunda pessoa da trindade em forma tangível, já que ele é aparição de Deus em forma humana. Além disso, o ícone não é uma cópia do original, mas um símbolo através do qual o crente pode contemplar e compreender o Divino; é um intermediário entre o Céu e a Terra, uma janela aberta nos dois sentidos, pois comporta a mensagem imanente de uma transcendência. Talvez com o intuito de reduzir as possibilidades de interpretação e de subjectividade, já que supostamente o personagem representado seria uma imagem autêntica do ser seu real, participando inseparavelmente do seu ser sobrenatural, a iconografia da igreja Ortodoxa foi-se fixando em modelos. Deste modo, a função do artista seria a dominação da técnica, ter conhecimento dos dogmas da representação e estar receptivo à revelação. Mesmo com o advento da perspectiva e da tridimensionalidade figurativa, no início do renascimento, a pintura simbólica Bizantina conservou a pureza emblemática na utilização da cor. Aliás, houve mesmo, como Trubetskoy, quem chamasse ao ícone ‘teologia em cor’.A aparência dos objectos visíveis é alterada a fim de que uma outra realidade seja discernida, e que a lógica da percepção sensorial seja suspendida, já que os elementos do sagrado não se encontram localizados no espaço-tempo terrestre. Sendo o olho humano imperfeito, aquilo que vemos não é como verdadeiramente é, sendo, pois, preferível que isso seja assumido nas imagens representadas.O ícone actualiza-se como uma realidade viva quando o pintor, pela oração e compreensão espiritual realiza o Divino em si mesmo. A incarnação é assim espiritualmente reactualizada, transformando a ideia em evento actual e abrindo espaço na alma do artista para o aparecimento revelado da imagem sagrada.

 

BIBLIOGRAFIA:
Christos - Enciclopédia do Cristianismo, Verbo Editora, Lisboa, 2004

Comte, Fernand, Dictionnaire de la civilization Chrétienne, Larousse – Bordas, 1999

Evdokimov, P., L’art de l’icône, Théologie de la beauté, Ed. Desclée de brouwer, 1970

Durand, Gilbert, L’imagination symbolique, A imaginação simbólica, Trad. Carlos Aboim de Brito, edições 70, Lisboa, 1995

Mitchel, W.J.T., Iconology- Image, Text, Ideology, The University of Chicago press, Chicago, 1986

Eliade, Mircea, The Encyclopedia of Religion , Volume 7, Macmillan Publishing Company, New York, 1987

Sourian, Etienne, Vocabulaire d’esthétique, Etien, Presses Universitaires de France, Paris, 1990

 

LÉXICO