EMOÇÃO E SENTIMENTO

 

Ana Gama e Silva

 

No seu uso comum, o termo emoção tende a incluir a noção de sentimento. Apesar destes dois fenómenos se encontrarem tão intimamente ligados que se torna fácil confundi-los, é possível distingui-los e estudá-los separadamente para no final melhor compreender a sua ligação. A distinção entre emoção e sentimento acompanha de perto a distinção entre corpo e mente. Compreender como se ligam emoção e sentimento, pode por isso ajudar-nos a melhor entender a ligação entre o corpo e a mente, e a melhor elucidar o verdadeiro sentido da nova antropologia, cujo objecto é o homem integral na sua dupla dimensão de Homo Sentiens e Homo Sapiens.

A reflexão que se segue faz referência ao trabalho desenvolvido pela neurobiologia contemporânea, remetendo, em particular, para a investigação levada a cabo por António Damásio e a sua equipa no campo das emoções.

 

Ao longo de um processo contínuo que culmina no sentir propriamente dito, as emoções parecem preceder os sentimentos e constituir o seu alicerce. Comecemos por indagar o que são as emoções para em seguida abordar a questão do sentimento.

As emoções fazem parte de um sistema integrado de dispositivos inatos e automáticos que visam solucionar os problemas básicos da vida e assegurar o bem-estar do organismo. Contribuem assim para a regulação homeostática de um organismo cuja sobrevivência depende da manutenção de condições internas estáveis e da possibilidade de adaptação às variações do mundo exterior. Enquanto mecanismos biológicos de auto-regulação, as emoções têm uma dupla função. A primeira é a produção de uma reacção específica do organismo a uma situação indutora, isto é, a um estímulo emocionalmente competente presente no meio exterior. A segunda função é a regulação do estado interno do organismo, através de modificações do corpo (ritmo cardíaco, pressão sanguínea, etc) que visam preparar o organismo para a reacção acima referida.

Todas as reacções homeostáticas são acompanhadas por estados do corpo mapeados no cérebro sob a forma de padrões neurais que registam os ajustamentos que vão sendo feitos para assegurar o fluir da vida. As emoções distinguem-se de outros mecanismos de regulação automática pelo grau de complexidade das respostas emocionais, que se podem  dividir em primárias (alegria, tristeza, cólera, surpresa ou aversão), de fundo (bem-estar, mal-estar, calma, tensão) e sociais ou secundárias (vergonha, ciúme, culpa, orgulho).

As modificações corporais que dão expressão às emoções, constituem formas naturais e não conscientes de avaliar o ambiente e de fornecer respostas inteligentes ao problema da vida. Quando a vida, porém, coloca ao organismo problemas novos e mais complexos, o repertório de respostas automáticas predeterminadas pela evolução pode revelar-se insuficiente.

A pressão do ambiente que se faz sentir na complexidade e dificuldade das situações materiais e práticas da vida, determina a evolução no sentido de criar dispositivos mentais capazes de resolver de forma cada vez mais eficaz os problemas vitais com base na possibilidade de uma melhor integração de toda a informação disponível. Os sentimentos emergem quando a acumulação dos pormenores mapeados no cérebro atinge um determinado nível, ou seja, quando a actividade do sistema nervoso atinge uma frequência crítica.

 

É através do sentimento que a emoção – ocorrendo no corpo - inicia o seu impacto na mente. O sentimento é uma representação mental do corpo a funcionar de determinada maneira e tem por referência imediata os mapas cerebrais nos quais certos padrões neurais são instanciados e a partir dos quais são construídas imagens mentais, configuradas também em padrões neurais de segunda ordem. O sentimento é uma percepção – sob a forma de imagem mental – que dá a conhecer à consciência o conteúdo dos padrões neurais relativos aos estados particulares do corpo. O sentimento traduz assim a vida na linguagem do espírito e constitui o pano de fundo da mente. A consciência começa ela própria por ser um sentimento – o sentimento de si de um organismo que se torna presente a si próprio na percepção de si.

É ao nível mental das operações biológicas que a integração total dos dados do conhecimento mapeados no cérebro se torna possível. A intervenção da consciência – capaz de se referir à experiência passada e de se projectar no futuro - permite analisar e reajustar os processos automáticos de avaliação ocorridos no início da cadeia emotiva e permite realizar correcções biológicas mais perfeitas, sempre no sentido da sobrevivência e bem-estar do organismo.

É neste recuo em relação à imediatez da resposta emocional que surge o espaço da acção consciente e da liberdade humana. Apesar de todas as nossas escolhas resultarem de certas condições antecedentes, é possível ajustar essas escolhas a critérios e contextos de diversa ordem – práticos ou ideais - e libertarmo-nos da tirania das emoções. O papel do sentimento permanece no entanto incontornável e toda a vida do espírito é permeada de afectividade desde o mais elementar processo de aprendizagem ao comportamento social e ético. A adesão – ou aversão - a certos ideais requer um vínculo afectivo que está na base da atribuição de uma valência positiva ou negativa a ideias, valores, objectos ou pessoas, que passam a funcionar como indutores de emoção. Qualquer objecto ou situação se pode tornar num estímulo emocionalmente competente. Chamando a atenção para a forma como determinado estímulo nos afecta, a partir dos mapas neurais que instanciam as modificações ocorridas no organismo, o sentimento torna esse estímulo mentalmente saliente investindo-o de uma determinada valência em função do grau de resistência oferecido pelo organismo, isto é, em função do grau de facilidade ou dificuldade no fluir da vida. Na sua dupla chamada de atenção para o estado do corpo e para o estímulo que o desencadeou, o sentimento é responsável por toda a atribuição de sentido ao mundo que nos rodeia – e aos mundos utópicos que possamos criar – segundo uma escala de valores cujo critério último é a vida com bem-estar, ou seja, a felicidade.

Existe uma estreita ligação entre a vida biológica e a vida do espírito cujo elo principal é o sentimento. Aos sentimentos correspondem sempre determinados pensamentos numa relação de bem-estar a bem-pensar e vice-versa. A harmonia ressentida no estado físico reflecte-se no plano mental tornando o pensamento aberto ao exterior e propício à criatividade. Determinados indutores de bem-estar têm sido explorados nesse sentido, dos quais a educação física, a música e a arte em geral, são exemplos possíveis.

 

Resta-nos considerar uma dificuldade com que necessariamente deparamos. Se as emoções servem a vida de forma inteligente e são em geral boas conselheiras, como explicar a repercussão negativa de certas emoções? Nem todas as emoções parecem igualmente aptas na sua capacidade de promover a sobrevivência e o bem-estar. O medo, a zanga, a tristeza são exemplos de emoções cujo valor homeostático é questionável. Estas emoções parecem más conselheiras e assentes numa apreciação incorrecta da situação, que necessita ser corrigida em benefício do bem-estar do organismo. Na certeza, porém, de que emoção e sentimento são a voz do organismo que deve ser escutada e não simplesmente silenciada como elemento perturbador. A razão não deve procurar suprimir as respostas emocionais mas deve ajudar a modulá-las e a adaptá-las às circunstâncias. Já Aristóteles percebera que o valor, positivo ou negativo, de uma emoção depende do contexto em que ela ocorre e da sua intensidade. O juízo racional pode justamente contribuir para combinar de forma inteligente sentimentos e circunstâncias. O segredo do bem agir reside na possibilidade de uma orientação conjunta do sentimento e da razão, evitando o domínio exclusivo de um ou de outro. Este princípio – que tem a vida com bem-estar no seu centro - permanece válido quando se trata de pensar o sistema das leis, dos valores éticos e a organização política.

 

Bibliografia

Damásio, António, O Sentimento de Si, Publicações Europa-América, Lisboa, 1999.

______________ , Ao Encontro de Espinosa, Publicações Europa-América, Lisboa, 2003.

 

LÉXICO